"Em cada Casa uma Canção, em cada Canção uma Saudade"

ONTEM, AO LUAR
(Catúllo da Paixão Cearense)

Ontem, ao luar,
nós dois em plena solidão,
tu me perguntaste o que era a dor
de uma paixão.
Nada respondi!
Calmo assim fiquei!
Mas, fitando o azul do azul do céu,
a lua branca eu te mostrei...
Mostrando-a a ti,
dos olhos meus correr
senti
uma nivea lágrima
e, assim, te respondi!
Fiquei a sorrir
por ter o prazer
de ver
a lágrima nos olhos a sofrer.

A dor da paixão
não tem explicação!
Como definir
o que só sei sentir!
É mister sofrer
para se saber
o que no peito
o coração
não quer dizer.

Pergunta ao luar,
travesso e tão taful,
de noite a chorar
na onda toda azul!
Pergunta, ao luar,
do mar à canção,
qual o mintério
que há na dor de uma paixão.
Se tu desejas saber o que é o amor
e sentir o seu calor,
o amaríssimo travor
do seu dulçor,
sobe um monte á beira mar,
ao luar,
ouve a onda sobre a areia
a lacrimar!
Ouve o silêncio a falar
na solidão
do calado coração,
a penar,
a derramar
os prantos seus!
Ouve o choro perenal,
a dor silente, universal
e a dor maior,
que é a dor de Deus.

Quando Jesus, meigamente
solitário,
no cimo do calvário,
seus olhos, indulgente,
erguia
aos ceus,
quanta dor, quanta poesia,
a penas,
nos seus olhos luz luzia,
a meditar!
Não era a dor de não
ter
esse poder
de remir
a humanidade
da eterna atrocidade
do sofrer!

Era, sim, a crúcea pena
de sentir
por Madalena
o coração
desfalecer.

Se tu queres mais
saber a fonte dos meus ais,
põe o ouvido aqui
na rósea flor do coração,
ouve a inquietação
da merencória pulsação...
busca saber qual a razão
por que ele vive, assim, tão triste
a suspirar,
a palpitar,
em uma desesperação,
a teimar,
de amar
um insensível coração,
que a ninguém dirá
no peito ingrato em que ele
está,
mas que ao sepúlcro,
fatalmente, o levará.

 

 

Imprima e Cante com os Seresteiros de Conservatória