"Em cada Casa uma Canção, em cada Canção uma Saudade"

LOCOMOTIVA 206
Rede Mineira de Viação

Nasci na Filadélfia-EEUU., no ano de 1910, graças ao grande inventor inglês Jorge Stepheson. De pedaços em pedaços, com muitos parafusos, arrebites e soldas eu fui construída. Meço 6m de comprimento, 3,15m de altura e 2,86m de largura. Enfeitaram-me com sino, apito e farol. Fiquei muito bonita e todos me admiravam lá na terra do Tio Sam. Estávamos na primeira década do século XX quando recebi a notícia: "Você vai trabalhar no Brasil". Recebi esta notícia com muita alegria pois faria a minha primeira viagem de navio. Embarcaram-me num grande navio que navegou pelo Atlântico por cerca de 30 dias com muito balanço e abandono; parece que foi aí que peguei a minha primeira "gripe de ferrugem".

Cheguei ao Rio de Janeiro onde fui recebida com muita festa, pelo povo que queria me conhecer e pelos meus novos donos. Lá estavam: o Coronel Leite de Souza; o Engenheiro Pedro Carlos da Silva e muitos outros Diretores da Estrada de Ferro Santa Isabel, que havia me comprado dos Estados Unidos.

Depois de muita conversa, muito blá-blá-blá, me falaram que eu viria para as montanhas do Estado do Rio e Minas Gerais. Aí fiquei mais feliz ainda, pois iria trabalhar numa linda região este Brasil maravilhoso.

Chegando aqui fui logo colocada em serviço, pois eu era jovem e com muita disposição para o trabalho. Dos anos 1920 até 1935, fui muito solicitada para as viagens da Estação de Barra do Piraí, no Estado do Rio, até a Estação de Soledade no Estado de Minas. Trabalhei muito. Meu maquinista (o que me dirigia) era o Manoel Vicente Sobrinho e o foguista (que me alimentava com lenha) era José Miguel Araújo.

Gente! Muitos de vocês não conhecem o traçado da antiga linha férrea onde trabalhei, cortando as montanhas do Estado do Rio e de Minas Gerais; era uma viagem simplesmente maravilhosa; que lindos túneis, pontes, cortes de pedra, muitos "mata-burros"e... uma paisagem deslumbrante, sendo a mais linda de todas a da Serra da Beleza, entre Conservatória e Santa Isabel do Rio Preto. Saía da linda Estação de Barra do Piraí e após trafegar um bom trecho no meio da rua principal daquela cidade, atravessava a Ponte Metálica, construída sobre o Rio Paraíba do Sul e logo depois começava a subir a primeira serra do itinerário, passando por Prosperidade; Ipiabas; Desvio Gomes; Paulo de Almeida até chegar aqui nesta querida cidade de Conservatória, onde hoje me encontro gozando de um merecido descanso. Estou muito feliz de estar aqui neste lugar maravilhoso, neste "Pedacinho do Céu", terra das Serenatas ao Luar; lugar sempre procurado por quem quer descansar da vida agitada das grandes cidades; eram os "VERANISTAS" como eram conhecidos na minha época que por aqui passava, e que ficavam hospedados nos hóteis: da Estação (Sr. Aníbal e Dª Aurora Duarte); da Dª Vivina e da Dª Mariana Simões. Me lembro, com saudade, que, quando das minhas chegadas aqui na Estação de Conservtória, lá estavam a Angélica ou sua mãe Dª Salma, com a sua mesa com pastéis fresquinhos, cavacas (que os passageiros adoravam) e o delicioso cafezinho. Os passageiros faziam ali um delicioso e nutritivo lanche para seguirem viagem. Mais tarde este serviço foi executado pela Maria NOssar (irmã da Angélica) e depois pela Miria Jorge. Me lembro, ainda, que trabalhavam aqui na estação, entre outros: o Sr. Gilberto - Agente da Estação; o Sr. Hélio de Castro - Sub-Agente e mais tarde também Agente; o Sr. Ernani, guarda-chaves e mais tarde o seu filho Pedro Rocha. Quem cuidava da manutenção do trecho daqui da Estação de Ferro era o Sr. Mário Conrado, chefe da "turma da soca" como era conhecida a turma que cuidava da manutenção da linha. No meu trabalho diário andava quase sempre atrasada, mas, mesmo assim era sempre esperada nas estações com muito carinho e ansiedade. Uma coisa que não me sai da lembrança era como eu era recebida aqui na estação de Conservatória na ocasião das Festas de Santo Antônio: a começar pelo grande número de passageiros que eu trazia de Barra do Piraí, vindos de todos os lugares, principalmente do Rio de Janeiro, muitas vezes vinha também a Banda de Música, ou do Rio ou de Barra do Piraí (Euterpe ou Moreira Lopes). A viagem já era uma alegria só, com a Banda tocando, o povo cantando. Na chegada aqui em Conservatória era costume eu acionar o meu apito antes do túnel e na chegada eu vinha tocando o sino. Na estação o povo aguardava com muita ansiedade, com muitos foguetes, soltados pelo Norberto. A Banda de Música chegava tocando aqueles lindos dobrados, até eu parar na estação. Aí era aquela alegria. O povo se reencontrando com os parentes que vinham para a festa; a chegada da Banda de Música; enfim, era o início do clima de festa para o povo local. Eu também ficava muito feliz com tudo aquilo. Pena que tinha que prosseguir minha viagem. Por outro lado quando era Sexta-feira Santa, eu não apitava e nem tocava o sino durante todo o dia. Era o respeito que naquela época se dedicava àquele dia sagrado para a cristandade. Com o passar dos anos o movimento da Estrada de Ferro (então Rede Mineira de Viação - RMV) foi aumentando e, então, tiveram que me substituir por uma outra locomotiva mais possante - da série 400 - e me passaram para um outro tipo de serviço. Passei a carregar os vagões dos chefes de linha e do Carro Pagador. Era comovente ver os funcionário da Estrada de Ferro receberem seus salários com alegria e tranquilidade naquela época, sem nenhum risco de assalto ou de roubo. Prestei serviços até o início dos anos 50. Aí fiquei um pouco esquecida mas sem nunca perder a esperança de um dia voltar a esta terra querida. Em 1960 e então Presidente da República, Jânio Quadros, teve a infeliz idéia de desativar quase todos os ramsi ferroviários que não davam lucro (que pobre visão de um Presidente da República). Lucro para que? Para ser desviado para outros meios de transportes, para favorecer os magnatas dos transportes rodoviários? Para ser dilapidado pelos corruptos do serviço público? Um serviço ferroviário é implantado não para dar lucro, mas para servir ao povo que necessita de meios de transporte econômicos e eficientes. Mas como Lei é Lei, a Estrada de Ferro RMV foi desativada em 1961. Muito tempo se passou e eu fui parar na Oficina da RMV de Barra Mansa, totalmente abandonada, esperando o maçarico me cortar toda em pedaços para ser vendida como "ferro velho". Triste fim me esperava. Mas, graças ao bom Deus, surge na oficina do "Juca da Luz" uma conversa entre o Vicente Ricado, o João Marcos, o Wanderley, o Júlio Cesar e o Juarez, que discutiam a possibilidade de me trazerem de volta para Conservatória. Após algum tempo, o Vitinho se interessa pelo assunto, abraça a idéia da minha vinda para aqui e começa logo a trabalhar nesse sentido. A primeira providência do Vitinho foi apresentar - como vereador, da Câmara Municipal de Valença - e com a ajuda do Dr. Paulo Teixeira, um projeto de requerimento solicitando a ajuda do Município para a minha remoção de barra Mansa para Conservatória, justificando que era uma coisa boa para a nossa cidade, pois relembrava o velho tempo das "Marias Fumaça" e serviria como um atrativo para os turistas que visitam Conservatória. Aprovado a proposição, pela Câmara Municipal de Valença, o Vitinho continuou a sua batalha, até conseguir do Sr. Elmo serejo, na época o Presidente da Rede Ferroviária Federal, a autorização para a minha remoção. Vocês não imaginam como fiquei feliz. Eu que iria virar sucata estava tendo a oportunidade de viver mais alguns anos, e me tornar "MONUMENTO HISTÓRICO" em Conservatória. Quem ajudou muito na minha vinda para cá, foi o grande amigo e companheiro de muitas viagens, o João Mateus de Sousa, filho do Avelino Mateus, gente nascida aqui em Conservatória. O João, antigo e dedicado ferroviário, se dedicou a me reformar, ainda em Barra Mansa, me pintando, me reformando, me preparando para a grande e última viagem da minha vida. Ele me acompanhou nesta volta gloriosa. Era o mês de novembro de 1981. Toda bonita, lustrosa, e até mesmo cheirosa, com muita alegria aqui cheguei. Foi uma recepção festiva. O povo todo na rua me aplaudindo. O Geraldo sapateiro fazia a vez do maquinista e tocava o meu sino e apitava na minha chegada pelas ruas de Cosnervatória. Na ocasião o José Borges, nosso grande seresteiro, fez uma canção maravilhosa falando tudo sobre a saudade que o trem de ferro deixara no povo de Conservatória. Finalmente me colocaram no lugar onde hoje estou. Um lugar de destaque, eu olhando para a Estação. Todos que passam por mim e que algum dia viajaram no trenzinho da RMV, me olham com saudade e alegria. Dª Maria rita, que sempre passava em minha frente, sonhava com os bons tempos que viajava no trenzinho da RMV. Eu, como "MONUMENTO HISTÓRICO" me sinto feliz e realizada. Muitos turistas que por aqui passam, tiram fotografias como recordação de Conservatória. Me colocam nas manchetes das Revistas e dos Jornais; até em filmes eu já apareci e sempre promovendo o turismo de Conservarória. Tive, durante toda a minha vida útil, muitos passageiros ilustres que moravam ou vinham visitar Conservatória. São tantos que não consigo citar os nomes de todos. Mas três passageiros foram muito especiais para mim. O mais antigo foi o Moacir Jornaleiro. Que criatura encantadora. Que dedicação ao seu modesto serviço de se deslocar, todoso s dias, de Barra do Piraí, com sua cesta de taquara, para vender aqui e por onde eu passava, os seus jormais e revistas. Me lembro ainda do seu "bordão" (sua frase favorita) para atrair a atenção dos fregueses; ele anunciava: "OLHA A NOTÍCIA DA MULHER QUE ENGOLIU UM TIJOLO!!!". Usava um "guarda-pó" todo furado pelas fagulhas (pequenas brasas) QUE SAIAM DA MINHA CHAMINÉ. Em 1938 tive a felicidade de transportar até aqui em Conservatória, dois jovens estudantes do Colégio Pedro II do Rio de janeiro, que vinham passar férias aqui. Esses dois jovens hoje são os símbolos da cultura musical de Conservatória, pois foram eles, JOUBERT CORTINES DE FREITAS e seu irmão JOSÉ BORGES DE FREITAS NETO, os precursores da nova fase das "SERENATAS AO LUAR", que tanto tem contribuído para o desenvolvimento do turismo em Conservatória.

Pois é, meus amigos e minhas amigas. Hoje eu estou completando 20 anos da minha volta à Conservatória. Posso dizer que me sinto como uma noivinha pronta parra casar, tal o meu estado de beleza e a minha alegria. Quero ficar por aqui com vocês aidna por muitso anos. Seu que sou querida por todos vocês e, particularmente, pelos nossos visitantes, que me tratam com muito respeito e carinho. Agora sou TROVAS - POEMAS e ... SAUDADES! OBRIGADA MINHA GENTE, POR TUDO QUE FIZERAM POR MIM.

SUA MARIA FUMAÇA 206

Pesquisa e Redação: Victor Couto e Helvécio Marques
(Novembro de 2001)

Obs.: A primeira locomotiva a transitar em Conservatória foi a de número 1 vinda da Alemanha por D. Pedro II. A 206 foi a segunda.